Cleonice Terezinha Fernandes[i]
Este título apresenta um trocadilho intencional: refere-se simultaneamente a potencialidade intelectual do surdo1a ou da comunidade surda e pretensamente remete a um potencial que está “surdo”, quer dizer, ora tomando a palavra numa acepção do senso comum, no sentido de que o mesmo é um potencial latente não descoberto na e pela cultura ouvinte.
Pretendo relatar uma experiência importante ainda desconhecida aos “ouvidos” e olhos da cultura ouvinte dominante, acontecida a partir de um contato informal com uma comunidade de quase setenta (60) indivíduos surdos em Timor-Leste na Ásia, durante o ano de 2006.
Uma interessante comunidade surda timorense. Em 2005 eu estive numa missão de cooperação do Ministério da Educação do Brasil com o Timor-Leste para um programa de qualificação profissional de professores timorenses em Língua Portuguesa.
Inscrevi-me na condição de professora de matemática. Finda a experiência, após um ano retornei ao Brasil e meses depois em maio de 2006, retornei a querida ilha asiática, desta feita por um convite de um Padre ítalo-brasileiro, Pe. Francisco Moser, o querido Pe. Chico, para trabalhar na comunidade de Ataúro – uma ilha timorense que compõem o conjunto dos seus 13 distritos.
Nesta segunda experiência, em Ataúro, a pedido do Pe. Chico, homem conhecedor da necessidade da ilha, fizemos um trabalho centrado na formação da identidade de grupos. Trabalhamos na perspectiva da “Educação para a Paz”[ii] com mulheres viúvas, pescadores, jovens e sobretudo com a já referida comunidade surda.
O que quero focar neste texto é justamente acerca do potencial desta comunidade. Não há registro de uma língua de sinais na ilha de Ataúro, ou seja, uma língua espaço-gestual típica de uma comunidade surda, devido principalmente a ausência de escolarização da maioria dos adultos e jovens, sobretudo ao período de guerrilha com a Indonésia, findo somente em 1999. O distrito de Dili, capital de Timor, é o único lugar onde se registram resquícios de uma Língua de Sinais, no caso, a Língua Indonésia de Sinais – praticada desde a invasão de Timor-Leste por este país – de 1975 até 1999;
Todavia o que quero destacar é a habilidade em comunicar-se com as línguas orais do timorense surdo de ATAÚRO – espaço no qual convivi com a comunidade surda. A quase que inexistência de sinais estabelecidos no espaço coletivo – percebi apenas o uso de sinais domésticos entre as famílias, de modo particular, pessoal e restrito – força-os a dominar as quase cinco (5) línguas orais praticadas na Ilha pelas famílias respectivas. O povo timorense em geral, devido sua peculiar história, pratica quase que meia dúzia de línguas: a língua da família da mãe – no país praticam-se 33 dialetos; a língua da família do pai; o inglês, língua comercial do país, necessariamente forjada para contacto com os inúmeros estrangeiros existentes no país; a língua portuguesa, oficial, sobretudo entre os mais velhos; o indonésio, forjado no período da guerrilha, e o dialeto local, muitas vezes distintos de todos estes demais citados idiomas.
O objetivo primordial de Pe. Chico era em princípio organizá-los em forma de associação de pais e amigos da comunidade surda, a exemplo do que é praticado no Brasil, para que a partir daí outras necessidades surgissem mediante decisões do próprio grupo envolvido. Na condição de sujeitos de sua própria história.
Mas o que me marcou no contacto com esta comunidade surda e que me move a fazer este relato é justamente o potencial lingüístico dos surdos ataurenses. Há primeiro que se destacar o potencial lingüístico de todo Timor. Por questões históricas este país é uma verdadeira babel lingüística, conforme citado acima; provavelmente por conta deste histórico o timorense utiliza várias línguas em seu dia-a-dia para comunicar-se, com grande competência, muito embora do ponto de vista da escolarização, haja restrições da academia para reconhecer, por exemplo, o domínio da língua portuguesa formal. Motivo pelo qual se intensificam ainda, decorridos quase 10 anos do fim da guerrilha, as cooperações com países lusófonos para vitalização da referida língua.
Os surdos de Ataúro entrosam-se de uma maneira peculiar com a comunidade ouvinte local. Participam de suas festas, de seu cotidiano, inclusive muitos homens são exímios pescadores. Lembro-me bem de Julião, um jovem surdo líder de sua comunidade: pescadores ouvintes. Julião é respeitado, ouvido, levado em consideração. Penso que provavelmente este respeito se deva ao fato da pesca ser fator econômico importante de subsistência da ilha e a possível origem remota da “surdez” da ilha: portanto um mérito!
O que me chamou a atenção por várias vezes era o domínio da comunicação oro-facial por parte dos surdos, muito embora não emitam sons audíveis para o interlocutor ouvinte. Eles lêem lábios com tanta habilidade e lembro-me de observá-los “lendo” inglês, os dialetos locais e algo em português, sobretudo na interlocução comigo.
A experiência de Ataúro foi breve, intensa e promissora. Sei que um trabalho mais elaborado poderá, e deverá, ser feito e servirá de base para estudos de uma fácil introdução de uma língua de sinais tipicamente timorense, dada à demonstrada habilidade lingüística do referido grupo. Pe. Chico faz um trabalho intenso de resgate histórico, e “repasse” de autonomia aos grupos.
Atualmente as Línguas de Sinais foram elevadas ao status de Língua oficial da comunidade surda de cada país de onde é originária. Elas são línguas distintas, por exemplo: existe a LGP – Língua Portuguesa de Sinais; LSF - Língua Francesa de Sinais; ASL - Língua Americana de Sinais (American Sign Language); LSA – Lengua de Señas Argentina; LSA – Língua de Sinais Australiana; LIS – Língua Italiana del Segni; HSE – Hausa Signi Language da Nigéria; e a LIBRAS – Língua Brasileira de Sinais, etc. O importante é os ouvintes compreenderem que estas línguas são as consideradas línguas maternas da comunidade surda de cada país de origem. Para estes indivíduos a Língua falada de seu país é sua segunda língua e como tal tem toda uma legislação de proteção para seu uso redacional em concursos, testes, etc; e uma importante iniciativa americana, ainda em estudos, de grafar estas línguas de sinais, com códigos próprios, numa tentativa de firmá-las ainda mais como língua oficial.
Fica claro também a força da sócio-cultura surda na ilha de Ataúro. É um jeito de ser, um olhar mais vivo que dos demais... Este foi um contato extremamente gratificante que tive na vida; O qual me fez repensar o ensino da língua materna para surdos, a pertinência do bilingüismo do sujeito inserido, enfim, fez-me repensar pressupostos de língua e comunicação e consequentemente sobre as reais dificuldades de uma pessoa com deficiência em áudio-comunicação. Uma língua de sinais estabelecida na Ilha de Ataúro e, por conseguinte, em todo Timor, faz-se extremamente necessário.
Minha concepção do indivíduo surdo não é enquanto pessoas deficientes, mas como grupos lingüísticos culturalmente diferentes dos sujeitos ouvintes, por princípio e lógica; Mas a convivência em Ataúro me fez repensar com maior clareza a crescente oposição da academia às tentativas de imposição da participação da cultura ouvinte na prática pedagógica de surdos. Como por exemplo, os “lindos” corais de surdos praticados no Brasil e América Latina...espetáculo à parte que agrada sobremaneira aos ouvintes. Apenas.
Quando iniciei meu contato com educação especial em 1986, ou seja, com a educação e reabilitação de pessoas com deficiência, infelizmente estávamos no Brasil, vivenciando o auge da retórica do oralismo – que se traduz por forçar o indivíduo surdo a emitir som somente, sem a necessidade da prática de uma língua de sinais - como ideal de ensino aprendizagem do sujeito surdo. Ainda bem que isto é passado. Remoto.
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[i] Cleo Fernandes é bióloga, educadora matemática atuante no ensino especial desde 1986. Atualmente é doutoranda pela UTAD - UNIVERSIDADE de TRÁS OS MONTES E ALTO DOURO em PORTUGAL (vertente em Desenvolvimento Motor da Criança), cuja investigação/pesquisa será centrada em reabilitação de Deficientes; e está professora da Universidade de Cuiabá - UNIC - com a disciplina “Processos Escolares de Inclusão – LIBRAS, língua brasileira de Sinais” na faculdade de Ciências Biológicas na cidade de Cuiabá, capital do Estado de Mato Grosso/Brasil. (cleo_terezinha@hotmail.com)
1a tilun diuk significa "orelha fechada" em tétum - língua nativa de Timor-Leste..
[ii] Trata-se de uma metodologia praticada de forma transdisciplinar em vários países; fonte inspiradora: Universidade de La Coruña/Espanha. (ORG):Xesús R. Jares - Coordenador de Educadores/as pola paz
www.educadorespolapaz.org / www.udc.es

