sábado, 25 de julho de 2009

As mãos falam. E os olhos leem


É um pouco difícil imaginar que no Brasil um adulto não conheça a música ´A Casa´, de Vinícius de Moraes. A grande maioria das crianças aprende rapidamente em escolas, ou em família mesmo, os famosos versos: Era uma casa, muito engraçada, não tinha teto, não tinha nada...


No entanto, entre as pessoas surdas, é muito difícil encontrar alguma que conheça essa e outras músicas tão populares. A verdade é que quase ninguém se lembra de tentar transmitir aos surdos significados e sensações cotidianas proporcionados por diversas situações e que são tão comuns e acessíveis aos ouvintes.


No último dia 26, alunos do curso de extensão ´Introdução à Língua Brasileira de Sinais - Libras e Educação de Surdos´ da Unianchieta, em Jundiaí, emocionaram ouvintes e surdos ao apresentarem, na língua dos surdos, diversas músicas, no ´Libras in Concert II´, evento que, na realidade, é o trabalho de conclusão de curso dos estudantes. Além de sinais da língua dos surdos, os alunos usaram figurino especial e muita expressão corporal. "É o corpo falando. É expressão pura", afirmou Júnior Nascimento, professor que ministra o curso.


O auditório do campus da Unianchieta ficou lotado para as apresentações. Uma das que mais emocionou foi ´A Casa´. Num primeiro momento, os alunos se expressaram para passar a mensagem da versão tradicional da música (que também foi exibida por som eletrônico). Depois, mudaram o figurino e fizeram uma expressão para passar a versão em rock da música, gravada recentemente pela banda Capital Inicial.


Os ouvintes e surdos aplaudiram muito, sendo que, para os surdos, os aplausos são representados pelo balanço das mãos no alto. A grande maioria dos surdos confirmou que não conhecia a música.A apresentação também envolveu as músicas ´Versos Simples´, da banda Chimarruts; a música ´Lavar as mãos´, de Arnaldo Antunes; ´La Bela Luna´, dos Paralamas do Sucesso; ´Aquarela´, de Toquinho e Vinícius de Moares; e ´Faz um milagre em mim´, de Regis Danese.


Pioneirismo - Além de oferecer o curso de extensão para alunos de bacharelado e cursos de formação tecnológica, a Unianchieta já incorporou a disciplina Libras na matriz curricular dos cursos de licenciatura, o que será obrigatório para todas as faculdades do País. Elas terão que se adequar até 2015.


A Unianchieta também dispõe de intérpretes, para que surdos estudem na faculdade. Atualmente, há um aluno surdo no curso de Administração de Empresas, um no de Logística, um no de Engenharia Química e outro no de Sistemas de Informação.Miltom Romero Filho é o aluno do curso de Logística. Ele foi o primeiro aluno surdo a ingressar na Unianchieta.


"O dia-a-dia é muito complicado. Quando vou ao correio e preciso consultar um CEP, por exemplo, preciso perguntar tudo por escrito para os funcionários. Ir ao supermercado também é supercomplicado. Mas na faculdade a gente aprende a lidar com isso também", afirma. Miltom também acompanhou o concerto dos alunos da extensão e aprovou. "Já houve uma apresentação no ano passado que foi muito boa. Este ano, foi melhor ainda.


"Christopher Lee, 19 anos, também cursa Logística, mas é ouvinte. Ele se apresentou no concerto. "É mágico podermos mostrar o que aprendemos nesse curso de extensão. O curso terminou, mas pretendo continuar estudando Libras", comentou. Colega de classe de Miltom, Lee afirma que a amizade entre eles ficou mais intensa. "Antes de eu fazer o curso, não conversava com o Miltom. Agora dá para interagir muito. Sempre nos comunicamos, inclusive para marcar atividades fora da faculdade."


* Para esta reportagem, o JJ Regional conseguiu se comunicar com os surdos com auxílio do intérprete Alexandre de Lima Faria.

PATRÍCIA BAPTISTA - 05-07-09

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